quinta-feira, 27 de março de 2008

GP BRASIL 1988 - CARTEZIANO EM RECORDE!

Os favoritos da prova eram Bowling, com J.Ricardo, que tentava o bicampeonato; o seu "faixa" Bat Masterson com Juvenal; e o argentino Larabee, que na semana da corrida teve um contratempo e deixou o Gocinha “ a pé”.

BOWLING


BAT MASTERSON



LARABEE



GONCINHA FICOU A PÉ


Programa oficial do JCB de 07/08/1988


Os funcionários do Jockey Club Brasileiro acertam os últimos detalhes para a colocação dos partidores. Perfilados numericamente, os jóqueis começam a chegar para o alinhamento. Na expressão de cada um, toda a expectativa pelo momento da largada. Jorge Ricardo, o primeiro da fila, não consegue disfarçar a tensão. Fisionomia carregada, procura evitar o lado externo da pista, onde os torcedores começam a fazer provocações.
- E aí Ricardinho? Vai ter que aturar o Juvenal novamente!
- Escolheu errado outra vez. Só vai dar Juvenal!
Ricardinho procura não olhar para o público, mas até os outros jóqueis percebem seu nervosismo. Gabriel Menezes, que momentos antes vencera o GP Presidente da República, aproxima-se e tenta acalmá-lo.
- Boa sorte, Ricardinho. Mais que isso, boa viagem, pois isso será uma longa viagem.
O starter Artur da Silva , também está atento. Não deixa escapar nenhum detalhe:
- Vamos lá senhores. Vocês não querem complicar minha vida, na é? – apressando o alinhamento.
Juvenal Machado da Silva é o mais descontraído. Conversa com os outros jóqueis, assobia e chega até a antecipar uma vitória do Haras Santa Ana do Rio Grande.
- Ô dá-lhe Ana, ô dá-lhe Ana, olé, olé, olá!
Mas Artur está impaciente. Volta a pedir rapidez aos concorrentes:
- “Seu” Ferreira, o senhor não vai correr destribado, não é? – grita para Edson Ferreira, que responde com um sinal e coloca os pés nos estribos.
Bowling e Slew In Mask são os últimos a alinhar. Emperor Julian, ao contrário, está com pressa e nem espera a largada. Rompe o portão e sai em disparada, sendo contido cerca de 50 metros depois por Gabriel Menezes.
- Não vai dar tempo de alinhar de novo “seu” Menezes. Vai ter que largar no grito – novamente o implacável Artur entra em ação.
Mas Menezes consegue alinhar novamente. E desta vez não há problemas. E foi dada a largada para o Grande Prêmio Brasil 1988!

SLEW IN MASK E RADNAGE LARGAM MAL

Escute o páreo na narração do saudoso Oscar Vareda:


video





NO MEIO DA RETA FINAL CARTEZIANO À ESQUERDA INICIA A ATROPELADA E BOWLING PROCURA PASSAGEM. NA PONTA JUNTO A CERCA, AINDA ESTÁ BAT MASTERSON.



RICARDO FOI OBRIGADO A LEVANTAR BOWLING E LANÇÁ-LO POR FORA DO CARTEZIANO






Faltam 50 metros para o disco, Édson Ferreira, no dorso de Carteziano, cerra o punho e dá três socos no ar. Na linha de chegada, o público vibra e o jóquei não se contém: chora, grita, mas continua com o braço erguido. No auge das comemorações o braço ainda está levantado e o punho cerrado. No rosto, a expressão é de alegria, mas as palavras que saem de sua boca soam como espécie de vingança:
- Saí daqui escorraçado. Agora, têm que me aplaudir.


O desabafo chega a surpreender, mas Édson Ferreira, gaúcho, em 1988 era radicado em São Paulo, após passagem pelo Rio, insiste: faz questão de manter o braço erguido e o punho cerrado, um gesto que ele não teve em 77, ao ganhar com Daião. O sorriso largo só aparece quando agradece aos aplausos por sua segunda vitória no GP Brasil.
Na repesagem, entre abraços, mais desabafos. E neles enfim, a explicação para o gesto:
- Sofri muito na Gávea. Fui perseguido. Um dia cheguei a ser suspenso injustamente. Sabe qual foi a razão que alegaram? Que eu dera “bananas” para o público. Erraram: o que fiz acabo de repetir. Apenas comemorei uma vitória com braço erguido e o punho cerrado.
E continua:
- Estou realizado, pois voltei à Gávea e ganhei dos favoritos, das vedetes. Falaram tanto no Ricardo com Bowling, e no Juvenal com Bat Masterson, que esqueceram-se de mim. Mas eu cheguei, de braço erguido e punho cerrado, montando Carteziano.
Édson Ferreira, já transformado na estrela do Grande Prêmio, é chamado para o Salão das Rosas, o local onde os vencedores recebem seus prêmios. No caminho, as manifestações do público variam: alguns batem palmas, outros comentam que ele quando montava no Rio, chegou a não se empenhar em alguns páreos, deixando de obter vitórias fáceis. Édson não ouve. Continua falando do páreo.
- Para ganhar um Grande Prêmio, o jóquei tem que ter gabarito. O Ricardinho por exemplo, não veio com a ação que deveria vir. Fiquei mais preocupado com o Juvenal, que corria na frente. Mas na altura dos 400 metros, já sabia que não perderia. Toquei o cavalo com a maior confiança.
Na entrada do Salão da Rosas, Édson parece encher o peito. Entra como autêntico ganhador. Recebe os prêmios, ergue a taça e parece mais aliviado. Quando lhe perguntam se ainda estava pensando nas injustiças que garantiu ter sido vítima, sorri com ironia:
- Sabe de uma coisa? Não vale a pena condenar as pessoas, citar nomes. Tenho mais é que perdoá-las, pois todos têm seus momentos de fraqueza. Mas que fui injustiçado, disso não tenho dúvidas. Agora, tem outra coisa: gostaria de montar novamente aqui na Gávea.
Na saída, voltando ao vestiário, Édson Ferreira fala de Carteziano. Montou o cavalo apenas duas vezes: há 20 dias , num galope no centro de treinamento do Haras Santa Ana do Rio Grande, em Petrópolis, e ontem na hora do páreo. Segundo ele a situação mudou inteiramente:
- Não preciso provar mais nada. Sou um jóquei consagrado estou com a alma lavada. Convenhamos: foi demais ganhar um Grande Prêmio Brasil outra vez. Posso até exigir mais respeito.

O treinador João Luís Maciel não resistiu: nos 400 metros finais quando viu Carteziano atropelar, guardou o binóculo, tirou os óculos e desceu correndo as escadas da tribuna dos Profissionais. Mal o cavalo cruzou a linha de chegada, já estava na pista, comemorando mais do que os proprietários e o próprio jóquei. A vibração foi tanta que na agüentou e chorou.
- O garoto merece. Tem só 25 anos e matrícula de treinador há apenas 9 meses – explicou o veterinário José Roberto Taranto, Diretor Técnico do Haras Santa Ana Do Rio Grande.
No serviço de veterinária, a festa não foi só de João Luís Maciel. Enquanto ele recordava o início de carreira – começou treinando cavalos do ex-árbitro de futebol Armando Marques e do empresário Elias Zacour - , o staff do Haras Santa Ana Do Rio Grande comemorava a colocação dos três cavalos que inscrevera: Carteziano, Bat Masterson e Bowling. José Carlos Fragoso Pires Júnior chegou a lembrar que Carteziano foi o primeiro cavalo a ser descartado por Jorge Ricardo, jóquei titular do stud. Ricardo o descartou quando, há cerca de um mês, pediram que ele riscasse um, duma lista de quatro: Carteziano, Bowling, Bat Masterson e Breitner, que acabou não sendo inscrito. A razão do pedido tinha uma razão: 2 cavalos correriam em nome do Haras Santa Ana Do Rio Grande e 2 em nome de José Carlos Jínior.
Já o treinador Alcides Morales, responsável por Bowling e Bat Masterson, fez questão de elogiar a direção que Ricardo deu à Bowling. Simplesmente considerou-a perfeita. Críticas ele tinha para Juvenal, jóquei de Bat Masterson:
- Juvenal errou duas vezes. No início poderia ter dado mais velocidade ao páreo e, no final, fez o cavalo correr antes do necessário. Já o Ricardo fez tudo certo. Não ganhou por outras razões.
O staff do Haras Santa Ana Do Rio Grande não fez críticas a qualquer dos jóqueis que montaram seus cavalos. O treinador João Luís Maciel garantiu até que os responsáveis pelo stud não deram instruções no sentido de que um jóquei fizesse corrida para facilitar a vitória do outro. Os três correram com total liberdade.

O ligeiro Emperor Julian, que tradabalhara espetacularmente, resgistrando 156s na distância da prova em Cidade Jardim, largou na ponta, seguido de Tilden, com CurriculunVitae e Bat Masterson em terceiro e quarto, muito próximos. O defensor do stud Inshala, controlado por Gabriel Menezes, passou os primeiros 400 metros em 25s cravados. Os demais parciais foram os seguintes: 800m em 49s2/5; 1.000m em 61s; 1.400m em 84s; milha em 98s; 1.800m em 110s. Neste ponto Emperor Julian cansou e ficou para trás.
Carteziano, que ganhou com sobras, passou os últimos 200m em 12s1/5. O train de carreira aumentou consideravelmente a partir dos últimos 800m cobertos em 47s1/5, com 35s1/5 para os 600m decisivos. A considerar ainda os seguintes tempos: últimos 2.000m em 120s1/5; milha final emk 95s4/5; 1.400m em 84s1/5; e 1.000m em 61s1/5.
O ritmo imprimido pelo ponteiro Emperor Julian foi relativamente suave, permitindo um final forte de Carteziano e dos demais que lutaram pela vitória dos 2.400m do Grande Prêmio Brasil 1988, vencido em tempo recorde: 145s1/5.


RICARDO NÃO SE ARREPENDEU DA ESCOLHA


O bridão Jorge Ricardo, piloto do favorito Bowling, estava tranqüilo após a carreira e plenamente conformado com o quarto lugar do tordilho. Não se arrependeu da escolha. Confirmou sua preferência por Bowling desde o início e mesmo há pouco mais de um mês antes, quando os titulares do Haras Santa Ana Do Rio Grande, que pretendiam inscrever 4 corredores (Bowling, Bat Masterson, Breitner e Caerteziano), pediram que descartasse um deles, o bridão não escondeu que preteriu Carteziano.
O train lento da carreira, segundo o profissional, foi o responsável pelo resultado da prova. Ricardo afirmou que seu conduzido teve um percurso normal, mas uma série de pequenos detalhes, além da falta de luta na primeira parte do percurso, roubaram a vitória do filho de Crying to Run e Tangência:
- O cavalo Emperor Julian tomou a ponta sempre contido pelo Gabriel e Tilden e Bat Masterson o acompanharam, num train muito lento. Corri Bowling na última colocação, principalmente pelo fato de largar muito por fora. Se tivesse partido por dentro, poderia tê-lo corrido atrás, mas não em último.
Jorge Ricardo afirma que logo após a entrada da reta, gritou para Édson Ferreira, pedindo passagem e que o piloto levou seu conduzido mais para fora, deixando o caminho livre:
- No filme da prova pode até parecer que o Carteziano me prejudicou, mas isso não aconteceu. Ele deu a partida antes do meu. Bowling correu o que sabe, mas como já disse, o train foi muito diferente do ano passado. O cuidado para não sofrer prejuízos, desviando de cavalos que já paravam, também atrapalhou.
Ainda não era daquela vez que Ricardinho venceria o GP Brasil, mas o bridão estava consciente de que outras oportunidades iriam surgir, como surgiram, e não havia razão para toda a polêmica criada, segundo ele, pela imprensa:
- Como já disse, o Barroso só venceu o GP Brasil depois de veterano, e o Gabriel Menezes ainda não ganhou. Talvez por eu ter ótimos resultados nos últimos anos a cobrança seja tão grande.



JUVENAL PENSOU ATÉ QUE SERIA PENTA

Juvenal disse que chegou a sentir a sensação do pentacampeonato na maior carreira do turfe nacional:
- Procurei correr o Bat Masterson perto dos primeiros, na quarta colocação, mas senti que os da frente não eram adversários e deixei-o correr um pouco. Quando ele dominou a corrida, cheguei a pensar que ganharia pela quinta vez, mas quando o exigi a fundo, tentando folgar na frente, perdi as esperanças. Ele não era o mesmo dos treinos. Acabou perdendo até a dupla nos últimos metros.




1º Carteziano
2º Corto Maltese
3º Bat Masterson
4º Bowling
5º Jack Bob
6º Satyr
7º Ken Graf
8º Japan Air
9º Scalloway
10º Jouble Say
11º Gaillardet
12º Curriculun Vitae
13º Tilden
14º Once In Ottawa
15º Slew In Mask
16º Radnage



AUTÓGRAFO DO EDSON FERREIRA APÓS A CONQUISTA DO GP